Análise: O que une a extrema-esquerda e a extrema-direita?

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9 abril 2018 19h11

 

Jornalistas e mecanismos de fact-checking viram alvo de extremistas e radicais

CRISTINA TARDÁGUILA*

Há ao menos um ponto que aproxima a extrema-esquerda e a extrema-direita do Brasil: o repúdio aos fatos e aos jornalistas que tentam relatá-los. Na tarde do último sábado (7), enquanto o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva se entregava à Polícia Federal de São Paulo para dar início ao cumprimento da pena de 12 anos e um mês de prisão que lhe foi imposta, os mecanismos de fact-checking e os jornalistas em campo se tornaram alvo dos extremistas e dos radicais. Suas armas? Tuítes e tapas.

No último discurso antes da prisão, ainda num palanque construído em frente ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Lula se vangloriou de ter sido o presidente que mais universidades construiu no país. É fato. Qualquer um pode acessar o Censo do Ensino Superior, feito e mantido pelo Ministério da Educação, e passar os olhos por sua série histórica. Lá, vai concluir que numericamente a frase do petista é inquestionável. Em oito anos de governo, Lula fundou 23 universidades públicas. Fernando Henrique Cardoso, seu antecessor, seis. Dilma Rousseff, sua sucessora, outras seis. Mas a extrema-direita não gostou de ser confrontada com isso durante o fim de semana. “Universidade para vagabundo se formar!”, escreveram alguns, espumando de ódio e citando o ProUni. “Universidades sem qualidade. Factoides! Pseudograduados que são analfabetos funcionais, pois tiveram uma péssima qualidade de ensino de base!”, repetiram outros, ignorando que nem mesmo Lula, em sua fala, defendia a qualidade das instituições criadas. Muito menos os checadores.

No mesmo discurso, ainda em São Bernardo do Campo, o ex-presidente gritou alto que o Brasil tinha sido o “último país do mundo a ter uma universidade”. Não. Errado. Angola, Etiópia, Arábia Saudita e muitos outros inauguraram suas primeiras universidades bem depois. Mas a extrema-esquerda não tolerou essa confrontação. Considerando tolerável o erro flagrado no discurso do ex-presidente, foram para a internet: os checadores “não têm nada a dizer sobre os elementos centrais do discurso de Lula — o golpe de 2016, a perseguição judicial contra ele, a falsidade das acusações, a parcialidade do Judiciário…”.

Em artigo publicado nesta segunda-feira (9) na Folha de S.Paulo, o jornalista Ricardo Gandour manda um recado aos dois lados dessa guerra inócua: “A notícia é quase sempre aquilo que alguém não gostaria de ver publicado”. E os checadores, meus caros, vivem exatamente disso: de fazer notícia, de apontar onde um político acertou e onde ele errou. Não importa quem ele seja, a que partido esteja filiado, que passado tenha, nem que maravilhas ou desgraças haja imposto ao país.

A proposta do fact-checking não é — nem nunca será — defender A ou atacar B. Muito menos tecer julgamentos sobre a moral dos poderosos. A checagem de fatos feita no Brasil, fartamente reconhecida no exterior e totalmente apoiada no código de ética da International Fact-Checking Network, serve para pontuar onde os poderosos erraram (e todos erram), de forma a dar ao cidadão comum — aquele que não está polarizado — o dado correto, a informação exata de que ele precisa para tirar suas próprias conclusões. E, nessas conclusões, notem bem, pode até mesmo estar a discordância do resultado da checagem, assim como a aproximação ou o afastamento de determinado político. O que não deve caber, em hipótese alguma, é a negação do fato.

Também não cabe, novamente em hipótese alguma, que o ódio virtual derramado sobre aqueles que buscam a notícia se concretize em agressões físicas aos repórteres, câmeras e fotógrafos que vão às ruas.

No sábado, jogaram grades de ferro e garrafas d’água em Pedro Duran, da rádio CBN. De tarde, Joana Treptow, da BandNews TV, levou um tapa enquanto fazia uma transmissão ao vivo. O jornalista Igor Duarte, o cinegrafista Ricardo Luiz e o assistente Everaldo Guimarães, todos da Rede TV!, foram atacados com copos e latas de cerveja. Não parou por aí.

Em nota divulgada no dia 7, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) ainda relatou a história da repórter Gabriela Mayer, da BandNews FM. Durante as manifestações pró-Lula, uma mulher tentou tirar de sua mão o celular com que ela trabalhava e, para isso, lhe desferiu um soco na barriga. Caio Rocha, da Jovem Pan, foi intimidado por manifestantes e impedido de continuar uma transmissão ao vivo. Bruna Barboza, da Bandeirantes, foi cercada por militantes que a agrediram verbalmente e teve de se retirar do local. No aeroporto de Congonhas, na capital paulista, o repórter Roberto Kovalick, da TV Globo, foi hostilizado por manifestantes e teve de deixar o local.

No outro lado da trincheira política, o mesmo ocorre. Em março de 2016, quando quem estava nas ruas era o movimento antipetista, o jornalista Juca Kfouri foi atacado em casa. Com buzinas nas mãos, um grupo usando camisas verde-amarelas parou carros em frente a sua portaria e começou a buzinar: “Juca Kfouri, maldito, fdp, petista!”. O jornalista desceu e, por pouco, a noite não terminou mal. Meses antes, pichações com a frase “Morra, Jô Soares” foram feitas na rua do apresentador da TV Globo em São Paulo. O motivo de tanto ódio? Ter entrevistado a ex-presidente Dilma Rousseff com “um tom ameno”.

Mas, é isso mesmo? No Brasil de hoje, ameno não vale? Ameno é frágil? Ameno é para os vendidos? Fatos são para ser ignorados, contestados, repudiados? Jornalistas são para ser agredidos? Fisicamente e digitalmente? Não. Os jornalistas seguirão em frente.

* Cristina Tardáguila é diretora da Agência Lupa

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