O horror na fronteira

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1 março 2017 19h30

Claudio Goulart, serralheiro, 45 anos, enfrentou uma travessia arriscada para entrar nos Estados Unidos com “coiotes” em 2002

Em 1995, decidir morar nos Estados Unidos. Vendi minha moto, comprei a passagem e, com 80 dólares no bolso, desembarquei no aeroporto JFK, em Nova York. Mas a vida nos EUA não era nada do que eu havia imaginado. Sofri muito no começo. Trabalhava na construção civil quinze horas por dia, sete dias por semana. Emagreci muito. Conforme aprendia o idioma, abri minha própria empresa de instalação de pisos de madeira e comecei a ganhar dinheiro. A cada dois anos, eu vinha visitar a família para matar a saudade.

No fim de 2001, depois do atentado às torres gêmeas, o cerco apertou. Havia blitze por todos os lados. Resolvi passar uma temporada no Brasil até as coisas se acalmarem. Em março de 2002, quando desembarquei de volta em NY, fui deportado.

Toda a minha vida estava nos Estados Unidos. Meu carro, minhas roupas, minha empresa. Por isso eu decidi entrar pelo México. Desembarquei no aeroporto de Guarulhos e nem voltei para minha cidade, Buritama, no interior de São Paulo. Comprei uma passagem para a Cidade do México e embarquei sem ter a menor ideia do que iria acontecer.

Nenhuma obra de ficção consegue descrever o horror que é essa travessia. Da capital mexicana, peguei o ônibus para uma cidade na fronteira chamada Reynosa. Logo na entrada da cidade, policiais mexicanos pararam o ônibus, viram que eu era estrangeiro e queria atravessar a fronteira. Aquilo é uma máfia. Fui levado para uma sala sem cadeira nem banheiro. Depois de dar 100 dólares para cada policial, ganhei água gelada, cadeira, ventilador. Os próprios policiais me levaram até o centro da cidade e me mandaram procurar um homem com uma flanelinha vermelha. Esse rapaz me levou para um sobradinho sujo de dois quartos e um banheiro, onde já estavam umas cinquenta pessoas.

No meio da segunda noite, um mexicano acordou todo mundo gritando “Vamos! Sem mochila! Sem mochila!”. Para não ser confundido com traficante, tive que deixar para trás minhas roupas, câmera fotográfica, perfume e outros objetos pessoais.

Cinco caminhonetes nos deixaram no meio de uma estrada. Acompanhados de três “coiotes”, caminhamos no escuro em fila, dentro de um pasto, por quatro horas até um rio de uns 80 metros de largura, com uma correnteza forte. Fiquei preocupado, porque nosso grupo tinha idosos e crianças. Cada um ganhou uma câmara de pneu e um saco de lixo para guardar as roupas. Fazia muito frio. Na outra margem do rio, vi passaportes jogados no chão e corpos de pessoas que haviam se afogado. O cheiro de corpos em decomposição era forte.

“Na outra margem do rio, vi passaportes jogados no chão e corpos de pessoas que haviam se afogado. O cheiro de corpos em decomposição era forte”

Depois de mais quatro horas andando e escalando cercas, alcançamos a cidade americana de McAllen. Fomos levados para uma casa grande, afastada da cidade, onde estavam umas 100 pessoas. A fila do banheiro era enorme. Ninguém podia sair da casa, porque a cidade é muito pequena e a polícia sabe quem é imigrante.

A casa era uma espécie de QG dos “coiotes”, que escolhiam alguns para fazê-los de reféns. Eles obrigam os imigrantes a ligarem para a família pedindo 5.000 dólares e não deixam a pessoa sair da casa enquanto não recebem. Um goiano estava preso na casa havia quatro meses porque a família não tinha dinheiro para mandar.

Saímos da casa no meio da madrugada, em caminhonetes que levam até o meio do mato. O grupo teve que andar 140 quilômetros por três dias e duas noites. Cada pessoa tem que escolher entre levar uma lata de comida ou um galão de água. Foi um sofrimento horrível. Andamos dia e noite, sob o sol quente, em um lugar cheio de carrapato, cobras venenosas. Nesse trecho também vimos corpos em decomposição, de imigrantes que foram picados por cobras e ficaram pelo caminho. No meu grupo havia um idoso bem magrinho que eu carregava nas costas quando ele não aguentava andar. As crianças tomavam remédio para dormir e os pais levavam no colo.

Quando finalmente chegamos em Houston, cada um seguiu sua vida. Eu peguei uma van que iria até Massachusetts e passei mais dois dias na estrada. Minha família e meus amigos ficaram uma semana sem notícias minhas. Quando consegui falar com eles, não sabia se ria ou se chorava.

Depois de cinco anos dessa experiência que eu nunca vou esquecer, e sem poder visitar a família, a saudade do Brasil apertou demais e eu voltei para minha terra natal. Morro de vontade de voltar para os Estados Unidos, mas nunca mais dessa forma.

Depoimento colhido por Daniela Macedo
Foto por Célio Messias/VEJA.com

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