A reinvenção do couro

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4 fevereiro 2017 13h40

Ornamentos de couro são mais que tradicionais no Nordeste

Artesãos que trabalham com o material lutam contra a recessão do setor para sobreviver e manter a tradição nordestina

Por: Tatiana Ferreira, da Folha de Pernambuco

Cantadores e compositores sertanejos, mesmo em ‘sertões brabos’ do Nordeste, conseguem transformar a terra rachada e o gado sedento em poesia. Não diferente, artesãos do couro lutam contra a recessão do setor para sobreviver e ainda manter respirando a tradição nordestina.

A saga desses artistas começa desde a diminuição nas vendas, passa pela falta de incentivo à produção e exportação dos produtos e vai até os desafios de reinventar a própria criação para continuar no mercado. Embora a produção de artigos de couro esteja estagnada no Brasil há duros 40 anos, para esses homens e mulheres, a bravura é um estado de espírito e resistência.
Embora a indústria curtidora registre cerca de US$ 3,5 bilhões de faturamento por ano e gere 40 mil empregos no País, atendendo inclusive a forte indústria calçadista nacional – composta por mais de 600 empresas, somente 12,5% dos calçados produzidos utilizam couro, segundo o Sindicato do Couro de Pernambuco (Sindicouro-PE).

Isso porque a preferência tem sido pelo material sintético, que é mais barato (aproximadamente metade do valor) e tem menos perdas, por não possuírem as falhas do material natural. Há também uma forte tendência mundial de cunho ecológico, pela redução do uso de peles.

Por outro lado, o segmento é fortalecido pela indústria de estofamento de veículos. “Em torno de 70% dos couros brasileiros são consumidos por esse segmento”, estima o presidente do Sindicouro-PE, Murilo Mendes.Mas, longe das grandes indústrias de carros, o artista Lucas Cordeiro, do município de Belo Jardim, Agreste de Pernambuco, vê a sua atividade se extinguir aos poucos. Aos 60 anos, 45 deles dedicados à confeçção artesanal de calçados de couro, ele lamenta ter visto suas vendas caírem cerca de 70% no ano passado, se comparadas as de 2015.

E, acredite, isso aconteceu mesmo com um vendedor experiente da feira de Caruaru como Cordeiro. “Do jeito que está, tiro R$ 1 mil por mês no máximo”, confessa. Ele lamenta o fraco desempenho levando em conta a sua dedicação ao ofício, o qual consome 36 horas de trabalho para a produção 12 pares com todo o capricho.

“Eu não faço qualquer coisa. Estudei até sobre a anatomia do pé humano para produzir os sapatos”, pontua orgulhoso ao falar de sua técnica. “Comparando com meu irmão que faz apenas aquelas botas de couro tradicionais, até coloco umas coisinhas diferentes para as moças”, completa, demostrando a preocupação com a estética do produto final.

O sacrifício dele se assemelha ao de Severino José da Silva – também artesão de sandálias e botas. Ele vende no Mercado de São José, no Recife. Por semana, Silva apura, em média, R$ 270. “Mais do que isso só em época de São João”, ressalta. Quando questionado sobre se considera a renda pequena, ele responde que, mesmo sendo um material resistente e duradouro, couro é uma matéria-prima cara. “Continuo no ramo porque gosto do que faço, foi só o que aprendi”, relata o senhor das mãos calejadas pela lida com o martelo que molda o material.
O artesão caruaruense Luciano Bezerra confecciona coletes e chapéus, mas também está sentindo as vendas esfriarem. Seu negócio sofreu uma redução de 20%. “Compro um metro de couro por R$ 50. É caro. Não repassar para o cliente é muito difícil”. A angústia do artista é tanta que, quando questionado se deseja que o filho Fábio, de 19 anos, siga seus passos, ele não hesita: “De jeito nenhum. Quero que ele estude e vá fazer outra coisa”.

Mas, ainda há esperança de que as novas gerações mantenham a tradição nordestina da arte em couro viva. O artesão Frank Sinatra, de 24 anos, vê a atividade de forma romântica. “Quero que, quando eu tiver um filho, ele resista e valorize nossa cultura”, pontua incisivo.

Ornamentos de couro são mais que tradicionais no NordesteFoto: Felipe Ribeiro/Folha de Pernambuco

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